Artigo: Cuidar da saúde mental antes da crise
O debate sobre a assistência em saúde mental em Porto Alegre exige uma reflexão que supere o modelo de isolamento em favor de uma rede que acolha e promova autonomia do cidadão em sua integralidade. A saúde mental deixou de ser periférica, ela atravessa o cotidiano e impõe ao poder público respostas responsáveis. Na capital, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) avança na superação de barreiras, assegurando que o cuidado não seja dissociado do corpo nem do território.
Atualmente, todos os 17 CAPS da cidade contam com atendimento psiquiátrico, somando 48 especialistas desta área, além de outros 18 integrados à Atenção Primária. Essa força de trabalho atua em equipes multidisciplinares com psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais. Algumas, com médicos pediatras e clÃnicos gerais.
Com a inauguração de mais cinco CAPS e duas Unidades de Acolhimento, totalizando 60 novas vagas de acolhimento à crise, até o fim de 2026, a rede será ampliada em mais de um terço, incluindo unidades infantis e leitos de permanência noturna para desafogar as emergências. Esses dados já posicionam Porto Alegre acima da média nacional, com sólidos indicadores de expansão.
Esse fortalecimento reafirma o compromisso com a polÃtica de desinstitucionalização. A psiquiatria mantém seu papel fundamental, mas integrada a um modelo que prioriza o cuidado em liberdade. A reorganização das emergências, ampliando os locais de acolhimento para situações de crise, reflete o foco no tratamento continuado e em serviços de porta aberta, capazes de intervir precocemente. Afinal, mente e corpo são indissociáveis. Paralelamente, os nove residenciais terapêuticos (SRTs) públicos promovem moradia e convivência para egressos de longas internações, resgatando a cidadania.
Com mais de 65 psiquiatras atuando sob a perspectiva do cuidado em liberdade, Porto Alegre reafirma que a saúde mental é prioridade. Cuidar antes da crise, com planejamento construÃdo junto ao usuário em seu próprio território, não é apenas uma diretriz técnica, é um compromisso ético e contemporâneo com a vida.
Fernando Ritter
Secretário de Saúde de Porto Alegre
Artigo publicado na edição de 29 de janeiro do Correio do Povo
Lissandra Mendonça