De imigrantes a protagonistas: mediadores transformam o acesso à saúde em Porto Alegre

15/02/2026 09:07

Quando chegou ao Brasil do Haiti, há 10 anos, Jean Júnior Thevenin precisou de atendimento de saúde em razão de um corte no braço. Ele não sabia falar português e não conseguiu explicar ao profissional o que havia acontecido. Recebeu atendimento pontual e foi liberado. Hoje, ele é um dos cinco mediadores interculturais da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), em Porto Alegre, e auxilia imigrantes haitianos a terem acesso à rede de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

Júnior foi um dos primeiros mediadores e está acompanhado de mais quatro colegas da Venezuela, Haiti e Senegal que atuam em conjunto para auxiliar outros imigrantes a se conectarem com os profissionais de saúde, garantindo que recebam atendimento adequado. O trabalho ocorre de forma presencial para atendimentos pré-agendados e remoto em casos de livre demanda.

“Como mediadores, recebemos constantes formações e atualizações profissionais, conhecemos os direitos que um imigrante tem pelo SUS e é muito gratificante poder facilitar o acesso a esses direitos”, conta Júnior. Entre os pacientes acompanhados pelo haitiano está CLJ, 37 anos, que chegou ao Brasil em 2017. Teve os documentos roubados e passou por uma série de dificuldades, desenvolveu dependência de álcool e drogas e questões de saúde mental, com perda de memória. Hoje, vive em um residencial no bairro Cristal, mantido pela Secretaria Municipal de Assistência Social. Voltou a escrever, já consegue sair na rua sozinho e recebe recursos do Bolsa Família. 

Trabalho de acompanhamento - “Não somos apenas tradutores, temos um trabalho de acompanhamento, damos suporte na parte social, inicialmente na saúde, nas unidades e hospitais, mas também nos Centros de Referência em Assistência Social, dependendo do caso”, explica a mediadora venezuelana Yerica Medina. “As famílias chegam completamente vulneráveis, têm dificuldade com o idioma, não conhecem a região, e encaminhamos para que façam documentação, encontrem um trabalho, para que se sintam o menos possível estrangeiros, para que se sintam em casa”, diz.

Yerica está no Brasil desde 2019. Mesmo com a similaridade entre português e espanhol, teve dificuldades. “Meu desafio para falar o novo idioma começou no trabalho, era uma necessidade de sobrevivência. Se naquele momento eu tivesse acesso a um mediador, teria sido ótimo”, afirma. Passou por momentos de ansiedade e, pouco a pouco, foi entendendo o português e a cultura do novo país. Atua como mediadora há três meses. “É tão importante ter uma pessoa que te oriente, saber que não estás sozinha, que tens esse apoio.”

Mediadores interculturais - A atuação dos profissionais começou em Porto Alegre em outubro de 2021. Em abril de 2022, a SMS recebeu premiação nacional pela iniciativa. O “Prêmio APS Forte no SUS: integralidade no cuidado” é promovido pelo Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil (Opas).

Para solicitar acompanhamento de um mediador, é possível entrar em contato por WhatsApp no número (51) 98902-7789. Está acessível a imigrantes, bem como a qualquer serviço.

Vanessa Conte

Andrea Brasil