De imigrantes a protagonistas: mediadores transformam o acesso à saúde em Porto Alegre
Quando chegou ao Brasil do Haiti, há 10 anos, Jean Júnior Thevenin precisou de atendimento de saúde em razão de um corte no braço. Ele não sabia falar português e não conseguiu explicar ao profissional o que havia acontecido. Recebeu atendimento pontual e foi liberado. Hoje, ele é um dos cinco mediadores interculturais da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), em Porto Alegre, e auxilia imigrantes haitianos a terem acesso à rede de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Júnior foi um dos primeiros mediadores e está acompanhado de mais quatro colegas da Venezuela, Haiti e Senegal que atuam em conjunto para auxiliar outros imigrantes a se conectarem com os profissionais de saúde, garantindo que recebam atendimento adequado. O trabalho ocorre de forma presencial para atendimentos pré-agendados e remoto em casos de livre demanda.
“Como mediadores, recebemos constantes formações e atualizações profissionais, conhecemos os direitos que um imigrante tem pelo SUS e é muito gratificante poder facilitar o acesso a esses direitos”, conta Júnior. Entre os pacientes acompanhados pelo haitiano está CLJ, 37 anos, que chegou ao Brasil em 2017. Teve os documentos roubados e passou por uma série de dificuldades, desenvolveu dependência de álcool e drogas e questões de saúde mental, com perda de memória. Hoje, vive em um residencial no bairro Cristal, mantido pela Secretaria Municipal de Assistência Social. Voltou a escrever, já consegue sair na rua sozinho e recebe recursos do Bolsa Família.
Trabalho de acompanhamento - “Não somos apenas tradutores, temos um trabalho de acompanhamento, damos suporte na parte social, inicialmente na saúde, nas unidades e hospitais, mas também nos Centros de Referência em Assistência Social, dependendo do caso”, explica a mediadora venezuelana Yerica Medina. “As famílias chegam completamente vulneráveis, têm dificuldade com o idioma, não conhecem a região, e encaminhamos para que façam documentação, encontrem um trabalho, para que se sintam o menos possível estrangeiros, para que se sintam em casa”, diz.
Yerica está no Brasil desde 2019. Mesmo com a similaridade entre português e espanhol, teve dificuldades. “Meu desafio para falar o novo idioma começou no trabalho, era uma necessidade de sobrevivência. Se naquele momento eu tivesse acesso a um mediador, teria sido ótimo”, afirma. Passou por momentos de ansiedade e, pouco a pouco, foi entendendo o português e a cultura do novo país. Atua como mediadora há três meses. “É tão importante ter uma pessoa que te oriente, saber que não estás sozinha, que tens esse apoio.”
Mediadores interculturais - A atuação dos profissionais começou em Porto Alegre em outubro de 2021. Em abril de 2022, a SMS recebeu premiação nacional pela iniciativa. O “Prêmio APS Forte no SUS: integralidade no cuidado” é promovido pelo Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil (Opas).
Para solicitar acompanhamento de um mediador, é possível entrar em contato por WhatsApp no número (51) 98902-7789. Está acessível a imigrantes, bem como a qualquer serviço.
Andrea Brasil