Consultores franceses defendem cultura e turismo como motores da transformação

21/05/2026 16:26
David Pires/Divulgação
Palestra sobre a Estratégia de Turismo Cultural de Porto Alegre
Versão final da Estratégia de Turismo Cultural de Porto Alegre será entregue até o final de 2026

Os consultores franceses Mathieu Battais, do INCA Studio, e Guillaume Cromer, da ID Tourism, defenderam nesta quinta-feira, 21, na Usina do Gasômetro, que cultura e turismo não são consequências da revitalização urbana, mas suas alavancas. A palestra integrou a programação do 3º Encontro Internacional de Urbanismo em Áreas Centrais e apresentou ao público o método que orienta a Estratégia de Turismo Cultural de Porto Alegre, contratada pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) no âmbito do programa POA Futura.

A dupla francesa traduziu para o auditório a tese central do trabalho. Para Battais e Cromer, três fatores explicam por que centros históricos consolidados perdem força ao longo do tempo: uma riqueza patrimonial que se torna invisível por falta de visitação, ausência de narrativa coerente que justifique a vinda do visitante e dispersão dos atores institucionais, que administram seus equipamentos sem visão comum. Cerca de 40% das viagens internacionais têm motivação cultural, e o Brasil recebe entre 6 e 7 milhões de turistas internacionais por ano – contra 100 milhões da França – com crescimento de 37,1% apenas em 2025.

O método sistematizado pela dupla organiza o trabalho em quatro etapas: diagnóstico cultural e patrimonial, posicionamento narrativo, estrutura da oferta e governança com modelo econômico. As referências internacionais ancoraram a apresentação. Montreal, com o Bairro dos Espetáculos, mostra que cada dólar público investido pode atrair quinze dólares privados; Lima demonstra que restaurar quatro edifícios estratégicos pode dar início à revitalização de um bairro inteiro; Nantes prova que patrimônio industrial é diferencial, não passivo; Lyon ensina que um evento bem organizado altera a percepção da cidade de forma duradoura. “Neste contexto, a Usina não é apenas um prédio reformado. É uma locomotiva urbana", sintetizou Cromer ao traduzir as referências para o contexto porto-alegrense.

Os consultores também alertaram para três armadilhas comuns em projetos dessa natureza. A primeira é a vulnerabilidade social e o risco de gentrificação, uma vez que o sucesso eleva preços e pode expulsar quem dá identidade ao território. A segunda é a resiliência climática: ignorar a vulnerabilidade física, como demonstrou a enchente de 2024, compromete qualquer investimento a cada evento extremo. A terceira é o posicionamento internacional, que precisa diferenciar Porto Alegre de Buenos Aires, Montevidéu ou Rio de Janeiro desde a fase de concepção. Battais defendeu ainda que a estratégia atue simultaneamente em três horizontes – curto prazo para gerar visibilidade, médio prazo para garantir continuidade política e longo prazo para pertencer à cidade.

A versão final da Estratégia de Turismo Cultural de Porto Alegre será entregue até o final de 2026 e fornecerá base metodológica para as ações voltadas ao posicionamento da Capital como destino nacional e internacional. A AFD investe a fundo perdido na elaboração do plano, que integra a carteira do POA Futura e dialoga com os demais vetores do programa de revitalização da área central. Battais e Cromer fecharam a palestra com a frase que sintetiza a tese da dupla: "A cultura e o turismo não são setores a serem desenvolvidos somente após a reconstrução da cidade. São as ferramentas da própria reconstrução."

Claiton Silva

Cristiano Vieira