Artigo: O evento é nosso. E o lixo também
Poucas coisas mobilizam tanto o sentimento de pertencimento de uma cidade quanto um grande evento. Quando Porto Alegre recebe um show internacional, um festival em espaço público ou uma celebração aberta, algo muda no ar. A cidade vibra diferente. As pessoas ocupam as ruas, os parques e os equipamentos culturais. Há orgulho, identidade e encontro. É como se, por algumas horas, todos lembrássemos o quanto esta cidade é nossa. E é justamente por isso que precisamos falar sobre o que acontece depois.
Não é raro que, no dia seguinte a grandes eventos, praças, ruas, orla e entornos estejam tomados por resÃduos. Copos, embalagens, restos de alimentos. Um cenário que contrasta com a energia positiva vivida horas antes.
A teoria das janelas quebradas ajuda a entender esse comportamento. Ela mostra que ambientes sujos, desorganizados ou sem cuidado tendem a gerar ainda mais descuido. Quando o espaço público perde o senso de cuidado coletivo, o comportamento das pessoas acompanha essa lógica.
Mas o inverso também é verdadeiro. Cidades que preservam seus espaços e cultivam o cuidado compartilhado estimulam atitudes mais responsáveis. E é nesse ponto que entra uma reflexão essencial: o evento é coletivo, e a responsabilidade por ele também precisa ser.
Recentemente, a Prefeitura de Porto Alegre regulamentou, por meio do Decreto 23.713/26, regras mais claras sobre a limpeza e a destinação de resÃduos gerados em eventos. A norma estabelece que os organizadores são responsáveis pela limpeza do local e do entorno, em um raio que pode chegar a 500 metros, conforme o porte do evento.
Se isso não ocorrer de forma adequada, o MunicÃpio poderá executar o serviço, cobrar integralmente os custos e aplicar sanções, inclusive impedindo a realização de novos eventos por aquele organizador. É um avanço importante. A medida traz mais responsabilidade, organização e previsibilidade para um setor essencial a uma cidade que quer seguir atraindo experiências e visitantes.
Mas essa não pode ser uma responsabilidade apenas do organizador. Todo resÃduo começa com uma escolha individual. Cada copo no chão, cada embalagem deixada para trás, cada gesto de descuido se soma e cria um problema coletivo, ambiental e social. Mais do que custo, isso afeta o ambiente de negócios dos eventos. Quando há desgaste urbano e altos custos operacionais, a cidade inteira perde. Por isso, a mudança necessária não é apenas normativa. Ela é cultural. Cuidar do espaço público também é participar. Também é pertencer. O evento é nosso. A cidade é nossa. E o cuidado com ela também precisa ser.
Rafaela Brum
Diretora de Turismo e Eventos da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos de Porto Alegre
*Artigo publicado em 9 de abril em ZH on-line.
Lissandra Mendonça