Artigo: O tamanho do desafio

31/07/2026 09:17

Quem vive em Porto Alegre está acostumado às fortes pancadas de chuva no verão. No inverno, porém, temporais eram raros. Com as mudanças climáticas, essa realidade mudou.

Nesta semana, a Capital registrou mais um evento extremo. Técnicos do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) estimam que a chuva de 27 de julho superou - e muito - a capacidade do sistema de drenagem, provocando acúmulo de água em diferentes pontos da cidade.

É natural que isso desperte uma pergunta: por que ainda convivemos com alagamentos?

A resposta passa pela nossa história. Grande parte da drenagem urbana foi projetada entre as décadas de 1960 e 1970, quando Porto Alegre tinha outra configuração. Bairros como Sarandi, Humaitá e Vila Farrapos, por exemplo, estão completamente diferentes hoje do que eram há 50 anos. A cidade cresceu, impermeabilizou o solo e aumentou o volume de água que chega às galerias em poucos minutos. A infraestrutura, porém, permaneceu praticamente a mesma.

É essa realidade que estamos mudando. O Dmae possui R$ 2,3 bilhões em investimentos contratados para modernizar os sistemas de drenagem e proteção contra cheias. Até o primeiro semestre de 2027, todas as licitações estarão concluídas, permitindo o início do maior conjunto de obras estruturantes da história recente da Capital.

Da Zona Norte ao 4º Distrito, da Cidade Baixa ao eixo da Avenida Ipiranga, Porto Alegre viverá um amplo ciclo de intervenções. Entre elas, novas casas de bombas, ampliação da capacidade de drenagem e obras para tornar a cidade mais preparada para eventos climáticos extremos.

Mas essa transformação não será imediata. São obras complexas, executadas simultaneamente ao longo dos próximos cinco anos. Os resultados aparecerão gradualmente, à medida que cada etapa for concluída.

Não existe solução instantânea para uma infraestrutura negligenciada por décadas. Existe planejamento, investimento e a decisão de preparar a cidade para uma nova realidade. Porto Alegre já começou essa transformação.

Vicente Perrone
Diretor-presidente do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae)

*Artigo publicado na edição de 31 de julho do jornal Zero Hora

Lissandra Mendonça