Da rua ao cuidado: histórias de quem hoje é ponte entre pessoas em vulnerabilidade e o SUS
A experiência de quem já fez uso de drogas ou morou na rua serve de base para auxiliar pessoas que passam pelas mesmas situações em Porto Alegre. O trabalho faz parte da redução de danos fora das quatro paredes dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), com atuação direta nas regiões da cidade, junto às equipes de Consultório na Rua e de assistência social.
Luiz Caldas, 38 anos, está entre os oito redutores de danos contratados pela prefeitura. Ex-usuário de crack, destaca como o cuidado em saúde no território onde a pessoa está é algo novo e transformador. “A questão das drogas é sintoma de um contexto social, consequência de uma complexidade maior de vida”, comenta, destacando que não há uma receita para parar de usar drogas, é uma construção com os sujeitos e demanda acompanhamento e reflexão.
O atendimento humanizado está entre os objetivos da redução de danos, cujo papel é ser uma ferramenta terapêutica que ajude a pessoa a refletir sobre o contexto de vida, a relação que estabelece com as drogas e as angústias que ela tem. “É uma questão complexa, uma batalha de vida muito grande, mas a gente vê que, quanto mais a rede do SUS consegue dar uma atenção, tanto no território quanto no serviço especializado, as pessoas têm mais estrutura e apoio para melhorar”, avalia Luiz.
A escuta ativa é essencial no processo para entender as questões de cada um. A partir do convívio, a ideia é criar vínculos de confiança que auxiliem a pessoa a refletir se pretende acessar a rede, respeitando o desejo individual. “Se a pessoa concordar, fazemos o acompanhamento terapêutico, auxiliando nos primeiros momentos, para que depois ela crie autonomia e vínculo e possa acessar o serviço diretamente”, explica Luiz.
Com base em uma ficha de cadastro, são levantadas informações como dados da localidade em que estão, raça/cor, escolaridade, orientação sexual, se utiliza medicamentos, tempo em que está na rua, interesses e atividades que dão prazer, ajudando a construir, junto com o usuário, possibilidades de cuidado para além da droga. A lógica não é impor abstinência, mas construir caminhos possíveis a partir do que o sujeito traz. A ficha cadastral facilita o acompanhamento pela equipe da unidade de saúde.
“Não há regra nem receita para a redução de danos. Vai partir do que as pessoas que fazem uso de drogas e álcool trazem da relação com o uso. O redutor vai escutar, levantar informações e, a partir disso, construir as possibilidades em conjunto", afirma a coordenadora da área de saúde da pessoa em situação de rua da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Veridiana Farias Machado.
Oficinas - Atividades em grupo como oficinas, rodas de conversa e hip hop possibilitam o vínculo coletivo. “São momentos muito potentes, pois a pessoa não se sente sozinha, está compartilhando com outras que tiveram trajetória parecida”, diz Veridiana.
Latóya Matos está entre as quatro oficineiras contratadas para o projeto. Mulher trans que já viveu na rua, traz na trajetória a mudança de lugar: de quem era apenas alvo das políticas para quem hoje ajuda a construir o cuidado. “Acho fácil abordar as pessoas, porque passo pela mesma situação, falo da minha vivência e elas também se abrem. Consigo falar a língua delas. Nós, que já temos a vivência, conseguimos entender o lado da pessoa”, conta. Nas oficinas que ocorrem em centros de atenção psicossocial e centros pop, ela ensina a fazer botons e acolhe as angústias de quem precisa de apoio.
Latóya viveu em situação de rua por 20 anos até ser abordada por uma equipe de assistência social. Entre as oportunidades, acessou o aluguel social e foi encaminhada para a Geração Pop Rua, grupo de trabalho e renda da SMS, onde aprendeu a costurar e fotografar. Descobriu a paixão pela fotografia e, junto com os colegas de oficina, participou de exposição na Casa de Cultura Mário Quintana. As imagens de Latóya mostraram a realidade da vivência na rua e chamaram a atenção do público. Todas foram vendidas. Hoje, ela se prepara para assumir a própria casa, que conquistou a partir de projeto do Departamento Municipal de Habitação.
“A experiência tem sido grandiosa, é um aprendizado a cada dia e isso me dá forças para aprender mais. É um sentimento de mudança, ser uma trans, poder ajudar os outros e acolher ao mesmo tempo é muito bom”, conta. “Tudo é uma conquista, nada é da noite para o dia, mas têm equipes e pessoas que te acolhem. Só tenho a agradecer o que está acontecendo na minha vida e eu quero mais e mais, seja o que Deus quiser.”
Redução de danos - A iniciativa começou em 2024 na Secretaria Municipal de Saúde, com a contratação de dois redutores de danos, e foi ampliada em novembro de 2025. Faz parte de um projeto intersetorial que envolve as secretarias municipais de Saúde, Inclusão e Desenvolvimento Humano e Assistência Social, com duração de um ano, podendo ser prorrogado. A equipe é formada por pessoas com diferentes cores, etnias, gêneros, sexualidades e inclui imigrantes, o que fortalece a identificação e a construção de vínculo com os usuários.
Andrea Brasil
